A síndrome de Esaú

“E ninguém seja devasso, ou profano, como Esaú, que por uma refeição vendeu o seu direito de primogenitura” – Hebreus 12:16.

Enquanto Jacó abriu mão de algo pequeno e momentâneo para conseguir o que é grande e eterno; seu irmão Esaú, ao trocar seus direitos de filho mais velho pelo prato de lentilhas, fez exatamente o contrário.

Ao fazer isso Esaú:

  1. Preocupou-se apenas com seu estômago e não com sua história;

  2. Pensou apenas no momento imediato e desprezou o futuro;

  3. Mostrou desapego com as bênçãos que havia herdado de seus pais;

  4. Pensou somente no que ele era e não no que viria a ser;

  5. Olhou apenas o que era visível e estava dele, ignorando o que era distante e invisível.

  6. Ficou fascinado com o aspecto da comida; sua visão, olfato e paladar desejaram a comida e suas crenças e propósitos não foram fortes o bastante para impedir.

Jacó trocou aquilo que não era nada para ganhar tudo; seu irmão, no entanto, perdeu tudo para ganhar aquilo que não era nada.

Devemos considerar nossas escolhas diárias à luz da trágica história de Esaú. Pode acontecer também que nós, para satisfazermos nossos prazeres e necessidades passageiras, abramos mãos das bênçãos e dos privilégios dados por Deus.

É trágico mas não é raro, tão comum como uma das muitas síndromes que nos acometem: o tempo todo há pessoas só pensando no que é imediato, só vendo o que está diante dos olhos; e assim, desprezam grandes riquezas futuras em trocas de migalhas cotidianas (e muitas vezes nem se dão conta).

Efésios 3

Por meio do Espírito

Deus revelou seu plano secreto: fazer com que todas as pessoas, independente de raça, participem das bênçãos divinas. Esse é o propósito eterno de Deus que ele realizou

 Por meio de Jesus Cristo

e que deverá ser anunciado a todos

 Por meio da Igreja

que mostrará ao mundo a sabedoria de Deus em todas as suas diferentes formas. Mas para isso é necessário que todos nós estejamos unidos

 Por meio da fé

não permitindo que nenhum sofrimento nos faça desanimar. Por isso é necessário que

 Por meio do Espírito

tenhamos poder para sermos espiritualmente fortes e que

 Por meio da fé

Cristo viva em nossos corações de modo que tenhamos raízes e alicerces no amor para que nada nos faça desanimar ou nos afastar da comunhão junto com todo o povo de Deus. E assim,

 Por meio do poder

de Deus que opera em nós, toda a glória seja dada a Ele, que pode fazer muito mais do que nós pedimos ou pensamos.

As portas do “inferno”

Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela – Mateus 16:17-18.

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A pergunta: O que Jesus quer dizer ao falar de as portas do inferno?

 Uma breve pesquisa na internet nos mostra que o entendimento é basicamente o mesmo. Um pastor escreve que esse texto fala do “embate da Igreja contra as portas do inferno”; que a fala de Jesus mostra “que iremos contra as portas do inferno” e não apenas nos defenderemos contra as investidas de Satanás.

O pastor Enéas Tognini afirma que “as portas na referência de Jesus vêm a ser: TRONO, PODER, DIGNIDADE”; querendo dizer com isso que essas são as características do poder de Satanás que precisa ser defenestrado pela ação ofensiva da Igreja, porque “quando o inimigo ataca a igreja e a igreja age apenas na posição defensiva leva a pior”.

Outro pastor diz: “Igreja, nos movamos em direção às portas do inferno, passemos por elas, e salvemos as pessoas que estão aprisionadas no pecado, na ignorância e, sobretudo, na religiosidade”.

Mas não, “portas da morte” não é sinônimo de “reino de Satanás” ou algo similar. Um simples exame no texto da palavra traduzida por “inferno” mostra a razão do equívoco quase geral na interpretação desse texto. Aqui Jesus não está falando da vitória da igreja contra as hostes espirituais da maldade ou contra o poder de Satanás, Jesus está simplesmente falando do poder da morte.

A melhor tradução seria “as portas do hades” ou “as portas da sepultura” não prevalecerão contra a igreja. Vamos entender isso melhor?

O “hades” era o nome que os antigos gregos davam ao deus que tinha autoridade sobre o mundo dos mortos. A Septuaginta (LXX – a tradução do Antigo Testamento na língua grega) usa essa palavra para traduzir a palavra hebraica “sheol”, termo usado para se referir ao lugar dos mortos, normalmente à sepultura ou à morte em geral. No grego clássico “hades” era um lugar que continha tanto os bons como os maus; diferente do “tártaro” que, no pensamento dos antigos gregos, era um abismo escuro que servia de prisão ao deus destronado Cronos e aos titãs derrotados. Com o tempo o sentido da palavra evoluiu para um lugar de sofrimento sem fim onde os ímpios eram julgados.

A palavra “hades” é usada para designar o lugar dos mortos, simbolizado pela sepultura. O rico e também Lázaro foram para o “hades” (Lucas 16), como também Cristo esteve lá (Atos 2.27-31). Quanto Jesus vai falar do lugar de tormento e lugar do diabo e seus anjos, ele usa outra palavra, “geena” (Mateus 5.22), também traduzida por inferno, mas que faz referência ao vale de Hinom, um lugar onde o fogo queimava continuadamente.

“Portas do hades”, aqui traduzida indevidamente de portas do inferno, era uma expressão oriental para indicar a corte, o trono, o poder e a dignidade do reino do mundo inferior. Mas, tanto no Antigo Testamento (“sheol”) como no nesse texto, é uma indicação do poder da morte.

Então, como interpretar corretamente esse versículo?

Ao dizer que “as portas do hades não prevalecerão contra a Igreja”, Jesus está profetizando a vitórias da Igreja contra todas as tentativas de destruição da Igreja através da perseguição e morte dos cristãos. Jesus está dizendo que mesmo que milhares de cristãos sejam perseguidos e mortos, a Igreja não será sepultada. A Igreja não será vencida pela morte.

A ideia principal é que a Igreja não será destruída por nenhum poder, nem mesmo pela morte. Obviamente isso envolve e inclui o reino de Satanás, pela ação de Satanás muitos cristãos são perseguidos e mortos; mas a fala de Jesus é mais abrangente. As portas do hades se abrem para devorar a humanidade inteira e ninguém escapa a ela; exceto a Igreja. Reinos e famílias, instituições e legados são vencidos pela morte; mas não a Igreja. Mesmo que morram os apóstolos, mesmo que os líderes e milhares de fiéis sejam devorados pelas portas do hades, a Igreja permanecerá. Chegará o dia em que o reino da morte será destruído por Cristo (1 Co 15.26); até lá a morte irá devorar muitos, mas não o suficiente para abalar a Igreja.

O Sangue dos Mártires é a Semente da Igreja (Tertuliano). Certamente muitos cristãos ficavam temerosos quanto ao futuro ao verem os imperadores romanos praticando atrocidades sucessivas contra os cristãos. Euzébio nos conta que Nero Agripa enchia cidades de cadáveres e não satisfeito, iluminou Roma ateando fogo em cristãos untados de piche. De acordo com a tradição foi a implacável perseguição movida por Nero que resultou na morte de Pedro e Paulo. Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo e Paulo decapitado.

A essa primeira onda de perseguição, que terminou com a morte de Nero em 68 d.C., seguiram-se várias outras. Mas, contrariando às expectativas dos imperadores romanos e confirmando as palavras de Jesus; por mais que matassem centenas de cristãos, o número de cristãos só aumentava e o cristianismo avançava desafiando o poderoso império romano. Tertuliano, que morreu em 222, entendeu que a morte não apenas era incapaz de derrotar a Igreja como também revelava o poder da Igreja. Os cristãos submetidos ao sofrimento e morte davam testemunho da sua fé inabalável em Cristo e essa era uma mensagem poderosa o bastante para fazer outros aceitarem a fé cristã. Por isso Tertuliano diz que “o sangue dos mártires é a semente da Igreja”.

Concluindo

Ao dizer que “as portas ‘da morte’ não prevalecerão contra a igreja”, Jesus está dizendo que a morte de nenhum dos seus apóstolos ou discípulos colocará em risco a existência da Igreja. Ao dizer isso, além de sugerir que o avanço da Igreja implicaria na morte de muitos dos seus, Jesus deixa claro que nenhum mal ou dificuldade, nenhum obstáculo ou crise e nem mesmo a mais implacável perseguição será capaz de deter o avanço de sua Igreja.