O Atormentador de Si Mesmo

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Guernica (1937) , de Pablo Picasso.

Porque há na Bíblia relatos explícitos sobre situações chocantes e absurdas? As Escrituras Sagradas trazem várias histórias e acontecimentos com grande carga de violência e maldade nos mais diversos aspectos. Por quê?

  1. Porque temos que saber que Abel foi morto[i] pelo próprio irmão?
  2. Porque há na Bíblia o registro de Lameque[ii] fazendo um poema para se gabar dos assassinatos que ele cometeu por motivos fúteis?
  3. Qual a relevância em conhecer a covardia de Abraão,[iii] o futuro “pai da fé” que, para salvar a própria pele, disse que não era marido de Sara permitindo que ela fosse levada por outro homem?
  4. Qual a importância de ler sobre o incesto das filhas de Ló[iv] com o pai, a quem elas embebedaram e tiveram relações sexuais com ele para terem filhos?
  5. Porque saber que o grande rei Davi[v] cometeu adultério com uma mulher casada e depois assassinou o marido dela?
  6. Qual a utilidade de ler sobre os judeus[vi] cantando a caminho da Babilônia desejando que alguém esmagasse contra as pedras os filhos de seus inimigos?
  7. Porque devemos saber dos horrores vividos pelos judeus durante o cerco de Jerusalém quando mães[vii] matavam e comiam seus próprios filhos?

Será que o escritor bíblico está fazendo apologia desses crimes terríveis e desses comportamentos lamentáveis? Será que eles estão na Bíblia para, de algum modo, celebrá-los ou justificá-los?

A partir do momento em que o pecado entra na história humana, nós nos tornamos pecadores. Mas não apenas isso, todo o mundo à nossa volta passa a sofrer a consequência do nosso pecado. No entanto, a compressão superficial do que é pecado faz com que muitos pensem nele apenas como “aquilo que é errado”, ou feio. O pecado é a nossa inimizade contra Deus e contra tudo o que Ele representa. Assim, o pecado é uma sucessão de abismos, um maior que o outro, levando-nos cada vez para mais fundo e para mais longe de Deus e de toda e qualquer manifestação dele.

Os horrores descritos na Bíblia nos lembram disso, nos lembram do que somos e do mundo em que vivemos. O desejo homicida de Caim, a covardia de Abraão, a crueldade de Davi, a falta de escrúpulos das filhas de Ló e a sede de vingança dos cativos israelitas. Tudo isso representa todos nós.

E porque isso é importante? Porque, como Jesus lembrou a um líder judeu, não existe isso de pessoas boas[viii] ou gente de bem. A Bíblia não nos autoriza romantizarmos o mundo em que vivemos e nem nossa própria situação. Esse nosso mundo é descrito na Bíblia como trevas e como um lugar que permanece sob a ação de Satanás. E nós? Enquanto não entregamos nossa vida ao controle de Cristo somos escravos do pecado; e mesmo depois, ainda temos que lutar contra o pecado que continua habitando em nós.

Se nos lembramos disso iremos permanecer atentos para não permitir que os sentimentos de raiva e maldade nos dominem, como aconteceu com Caim. Iremos enfrentar nossos medos e insegurança, coisa que Abraão não fez. Ao contrário de Davi, iremos vigiar para não cair em tentação e, iremos seguir o exemplo de Cristo perdoando nossos inimigos. Atitude impensável para os judeus que marchavam para o cativeiro. No entanto, se romancearmos nossa condição e o mundo à nossa volta ignorando que estamos sujeitos a agir do mesmo modo, corremos o risco de repetir essas mesmas desgraças.

Quando Pablo Picasso pintou Guernica em 1937, ele retratou sua repulsa à guerra que arrasou a pequena cidade espanhola. Gravou os horrores daquela carnificina num painel que se tornou símbolo de paz e um protesto contra a guerra. Podemos atribuir os mesmos efeitos aos macabros relatos bíblicos citados: a repulsa de Deus aos nossos comportamentos pecaminosos e seu desejo que nos lembremos disso para evitar repeti-los enquanto buscamos dias melhores.

Enfim, os horrores que vemos no painel de Picasso, nos relatos bíblicos e nos jornais diários lembram-nos o que somos e em que mundo estamos. No entanto, não são poucos os que voltam-se contra esses relatos como se eles fossem o problema em si, como se a obra de Picasso estimulasse a guerra e a barbaridade entre os homens ou como se uma pintura que retratasse os horrores do estupro, incentivasse a prática que ela denuncia. Muitos dirão que é desnecessário, que trata-se de algo que ofende a sensibilidade das pessoas e perturba o espírito. Diante de pessoas que prezam tanto seu bem estar, recorro a Terêncio que, em sua peça chamada de Heaautontimorumenos, o que pode ser traduzido como O Atormentador de Si Mesmo, diz: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Embora a intenção do dramaturgo cartaginês provavelmente fosse outra, sua máxima deve nos advertir a não ignorar as nuances que nos caracteriza como humanos, por mais desprezíveis que elas sejam. Senão, em vez de atormentarmo-nos a nós mesmos por estarmos bem cientes de nossas falhas, podemos ser atormentados por outros quando sucumbirmos a elas.

[i] Gênesis 4.8
[ii] Gênesis 4.23-24
[iii] Gênesis 20.13
[iv] Gênesis 19.36
[v] 2Samuel 11.3
[vi] Salmo 137.8-9
[vii] Lamentações 2.20
[viii] Lucas 18.19
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